quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Casa vazia

O corpo era apenas uma pequena partícula no chão. Sentia-se fora de si materialmente. Conseguia sentir o nada. Eu, Bárbara, sou aquele ser logo ali e não sinto mais o amor e as saudades. Todos os sentimentos são físicos, todas as perturbações são patológicas: soube disso.

Acompanhou seus passos. A mochila de um lado só dos ombros a deixa torta para o lado oposto na tentativa de equilibrar o peso. Entrou na banca de jornal, comprou uma revista e chicletes. Deu o troco a um mendigo para se livrar das moedas e prosseguiu até o edifício. Sabia que teria raiva do seu chefe assim que o encontrasse no saguão, mas não conseguia sentir. Bons dias. A tarde toda em frente ao computador e não sentia o tédio aterrador de sempre. Estava muito distante.

Não consigo sentir a angústia de ficar parada durante horas no trânsito. Não consigo sentir antigas mágoas. Meu corpo apenas vive e come sem ter fome. Não tenho mais sentimento de posse pela minha casa.

Abriu a porta, não encontrou ninguém. O gato, sentado no sofá, a olhou de canto e levantou discretamente a cauda. Não havia mensagens, nem recados. Bárbara não sentiu falta disso. Fora do corpo a carência não existe, nem o medo, a solidão. Havia só distância e um corpo vazio.

Soltou a navalha, olhou-se no espelho, passou batom.

4 comentários:

Fran disse...

Adoro contos!
Adorei esse.
;*

Bárbara disse...

ADOREI ! E ela tem meu nome (ou melhor, eu tenho o nome dela!)... beijos ;*

Mel. disse...

Me faz lembrar daquela célebre frase do Oscar Wilde "Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe. "

beijos, professora!

thaic. disse...

Adorei. Porque de algum jeito, todo mundo passa por dias ou meses ou anos em que tudo apenas passa. E não se sente nada.