quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Pidona

Mamãe picava os tomates com todo o cuidado, porque os cubinhos tinham de ficar perfeitos.
- Me dá um pouquinho, mãe?
Mamãe me deu um punhado de lindos cubinhos que pus todo na boca.
“Menina pidona” – pensou mamãe achando graça.
Na escola os amiguinhos compravam batata-frita na cantina, o lanche mais caro da escola. Meus pais me davam dinheiro pra comprar, mas o dos outros era sempre mais gostoso:
- Me dá um pouquinho?
Geralmente eu ganhava. Mas chorava se não me dessem. Mas enquanto fui pequena sempre havia um piedoso.
- Tadinha, toma, eu dou o meu.
E eu ficava toda feliz, saia saltitando.
Quando era dia de São Cosme e São Damião minha felicidade crescia:
- Moço, me dá um saquinho? Dá um pro meu irmão? E um pra minha irmã?
Com os três saquinhos na mãe ia em direção à mamãe. E ela “Menina pidona”.
Adolescente eu pedia às meninas:
- Me dá um pouquinho do seu perfume? Do seu batom?
E saia mais linda e cheirosa que elas, porque sabia pedir.
- Me dá um pouquinho de você?
E ganhava um pedacinho do namorado de cada uma.
“Menina pidona”.
E pedindo, pedindo, chegou o dia em que desejei me casar:
- Me dá sua mão em casamento?
E ganhando, ganhando, chegou o dia em que recebi um não definitivo.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Livros me dão náusea 15

A pequena morte e outras naturezas (Claudia Lage). Recolhendo conchas para meu futuro doutorado-mar.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Livros me dão náusea 14

Comecei a ler Fazes me falta. Mas parei. A Inês Pedrosa não é autora que se leia no turbilhão da rotina. Por isso parei... Ou foi o mundo?

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

mulher jogando flores na Baía da Guanabara

Provavelmente para seus mortos.
Entrou na barca. Velho percurso Rio-Niterói, feito pelas barcas velhas de fim de semana. Sentou-se à janela com um maço de flores nas mãos: rosas brancas. Quando já íamos pelo meio da Baía, concentrada no olhar-prece, começou a lançar lentamente as flores: rosas brancas.

Imaginei que seriam por uma morte recente e ainda doída. Depois que fossem seis flores, cada uma para seus seis mortos:

Para meu pai, morto em 1977; para meu avô, morto em 1980; para minha filha, morta ainda no útero; para minha cunhada, morta em 1992; para meu sogro, morto em 1995; para meu vizinho, morto em 2009.

Imaginei que fossem para todos os mortos em desastres cujos corpos jamais foram encontrados no mar.

Por último imaginei que fossem pelos vivos que correm o terrível risco de viver. Imaginei e desejei: rosas brancas.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Livros me dão náusea 13

Acabei de terminar o livro novo do Mia Couto: Antes do mundo nascer. Lindo, poético. Lendo agora A alma imoral e O Ateneu. Além de Presença da Literatura Brasileira vol. III. Estudo, me distraio, me divirto, me enauseio.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Minha África

Penso na minha origem, nas minhas raízes. É uma dor funda saber que nasci da escravidão. Certeza de que vim de violência tão grande que até faz mal imaginar.

Mas imagino. Penso: de onde vim? De que tribo? Será que levaram a família toda ou ficou alguém por lá? Qual de nós morreu no caminho?

Estou em Cabo Verde, na beira da praia sentada em uma pedra, olhando o mar. Eles não queriam ir, por isso voltei. Dá vontade de chorar. O coração aperta diante de cada casinha que vejo. Será que minha família morava ali? Todas as velhas pretas são minhas avós. Sinto vontade de acarinhá-las.

De repente surge um menininho correndo atrás de uma bola que rola até perto de mim, da pedra onde estou sentada. Fico olhando a bola e esperando o menino se aproximar. Sua cabeça redondinha, raspada. Os olhos redondos também, protuberantes. Um irmãozinho, um priminho. Abraço o menino que, assustado, não me corresponde: olho-o com os olhos cheios d’água. Ele não me compreende, mas me permite. Talvez nem seja a primeira.

Devem me achar louca, e sou.

Vou procurar algo para comer e encontro à beira-mar um restaurante de pescadores. Peço peixe ao estilo local. Só o peixe e um refrigerante. Minha vontade é comer com as mãos e lavá-las na água suja de óleo daquele mar de onde me levaram. Mas há talheres e devo usá-los. O peixe tem gosto de peixe e o refrigerante, o mesmo que em qualquer lugar do mundo.

No guardanapo enxergo um barquinho de papel. Faço a dobradura, vou até o mar e o ofereço. O pescador-atendente me olha intrigado, talvez pense que sairia sem pagar. Volto e pago. Vou embora pensando se o barquinho chegará à minha casa dizendo “encontrei, mãe, encontrei os meus pais”.

O cais começa a esvaziar. Todos entrarão nas casas para comer e descansar. E eu caminharei.
Durante a caminhada percebo que ainda estou com fome, já que a carne leve do peixe sozinha não é capaz de saciar.

Na rua, encontro uma barraquinha de bolinho típico. É saboroso. O vendedor conta que muita gente almoça esse bolinho. Imagino minha avó cozinhando para as crianças, mas logo uma buzina a arranca dos meus pensamentos como ela foi arrancada do preparo da comida na véspera de ser embarcada no navio.

Aquele bolinho exposto na rua era a carne dos meus avós. A carne cozida na água e no sal do oceano.

A cor da pele e a textura dos cabelos o sangue nos dera. A língua, Portugal.

Todos festejaram minha presença. Seja bem-vinda, minha filha. Pródiga. Tenho presentes. Boas novas! Podemos ser de novo um.

O vendedor me convida para conhecer sua esposa. Encontro-a no quintal trançando o cabelo da filha. Conversamos enquanto assistia à operação.

A menina, toda vaidosa, acompanha por um espelho a transformação de seu cabelo. Digo que está ficando linda e ela sorri.

Mais crianças chegam para me cumprimentar. Uma ternura me invade. Abraço e beijo-os todos ajoelhada no chão sob o olhar materno-paterno.

O menorzinho tenta arrancar meus óculos. As meninas reparam minha roupa. É delícia como a gente se toca. Os corpos quase iguais. Suas peles apessegadas e empoeiradas do chão do quintal e da vida. Alguns também têm os cabelos trançados. A mãe percebe que eu os olho e me pergunta se gostaria de fazer tranças.

Sento-me na cadeira e recebo o espelho. A mão começa a eriçar meu cabelo, reparti-lo e repuxá-lo lançando uma mecha sobre a outra. O processo é demorado e prazeroso porque estou no seio da minha família. Da minha África.

Anoitece na casa da família do vendedor de bolinhos. Meu cabelo pronto, lindo. Entramos na casa e nos sentamos em frente à televisão. A mãe vem da cozinha e chama a todos para jantar.
Comemos e amamos juntos. Conto da minha terra distante. Minha casa, minha outra casa agora. Falo dos nossos que estão lá. O que existe lá. E ouço doces histórias da nossa ilha e do nosso mar em comum.

Digo que quero voltar, mas desejo ficar. O pai me fala que esse é nosso destino: a dor do partir-ficar. E me diz que fique mais uma noite. Levam-me de novo para o quintal e me apresentam ao céu estrelado. O mesmo céu dos meus antepassados. Soube: dali tinha vindo. E durmo, esta noite, na casa dos meus pais.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Livros me dão náusea 12

Lendo Noites na Taverna e Macário (ainda). E na metade de Dois irmão do Milton Hatoum. É um bom livro, nunca tinha lido o autor, mas esperava um pouco mais.