segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Dia dos professores

E eu nem me lembrei da minha profissão. Passou porque eu mesma nunca quis isso pra mim. Mas mulher que estudava, na minha época, era pra ser normalista; e normalista, ou dava aula, ou casava, ou ficava pra tia. Comigo aconteceram quase que as três coisas. Fiquei noiva durante o colégio, nem pensava em trabalhar, só seria uma esposa instruida. Com tudo pronto pro casamento, meu noivo morreu. Casa comprada, linda, enfeitada. Fui morar nela com minha mãe e uma irmã, herança de viúva solteira. Acabei precisando trabalhar para manter a casa. Minha irmã casou, teve filhos que foram meus alunos. Os filhos dos meus alunos foram meus alunos. E eu gostando cada vez menos da profissão. Gritando com as crianças, agredindo seus sonhos ao repetir que não iam passar de ano, não iam mudar de vida. Vão terminar pobres como seus pais. Vão terminar tristes como eu. Quem sabe acabem na cadeia. Pobres, feios, pretos. Hoje comemoram um dia em que não ganhei nem abraços nem flores, nem mesmo sei se recebi cumprimeitos sinceros. Acho mesmo é que os cumprimentos sempre foram irônicos. Tratei de ignorá-los. Assim como a todos os colegas, diretores e alunos. Sentava, abria uma página do livro, mandava que a turma fizesse - que se matassem se quisessem - dava as respostas corretas. Deixava-os livres. Até que adoeci. Aposentei-me por invalidez. Invalidei meus anos.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Afetos

A vida é feita de afetos. Uns afetos distraídos. Outros sensuais. E alguns profundíssimos.
A linguagem é o afeto em comum.
A obra de arte é a educação afetiva.
Dê ao outro um jornal e depois dê um livro e saberá a diferença entre oferecer um aperto de mão e um abraço.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Livros me dão náusea - 17

Agora sim as coisas começam a correr decentemente na minha vida de leitura. Vários livros abertos, mas as leituras caminhando:
Update
O feriado da páscoa, mais o feriado forçado por São Pedro renderam bons frutos literários!

A literatura em perigo - Todorov Terminei!!!
(acabei de publicar um texto sobre ele no http://eduqueinforme.blogspot.com)
A estrela sobe - Marques Rebelo Há terminei!
Boca do inferno - Ana Miranda
História do corpo vol. 3
Linguagem e ideologia - José Luis Fiorin

Vamos ver qual deles sobrevive!!!

terça-feira, 16 de março de 2010

O tempo

é amigo da literatura.
A falta dele dá mão à burrice e à falta de produção.
Vivo sem tempo para o que mais importa.
Mas me importo com todos com que uso meu tempo.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Livros dão náuseas - Edição férias

Complicado atualizar esse tópico nas férias! Fico muito improdutiva. Um pingo de peso na consicência pelas pendências que tenho, mas muito prazer no ócio.
Mas aí vao minhas tentaivas:
Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (Ana Paula Maia).
Noites Brancas (Dostoiéviski).
Sol brilhando,
chuva fina
linda.
Glitter por todo lado.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Cinderela Carioca

Recebeu do comandante uma bucha, fósforos e um litro de gasolina. Procura um carro, manda os passageiros descerem, se precisar, atira no motorista e joga o corpo pra queimar junto. Põe fogo em tudo pra eles saberem que nós não vamos ficar quietos.

O comandante (fada-madrinha) o incumbia pela primeira vez uma missão importante.

Pegou a sacola com o material, vestiu um boné, calçou chinelos e seguiu. Com medo. Se viu com muito mais medo do que imaginava.

Muitos ônibus passavam pela avenia principal e pensava "no próximo entraria". Espera parar no ponto. Não, esse está muito cheio. A rua lotada, poderiam pegá-lo.

Avistou um coletivo quase vazio parado num ponto. Uma chance. Foi andando em ziguezague entre os transeuntes e entou no ônibus, passageiro habitual. Odenou que descessem, molhou a bucha, jogou um pouco de gasolina no assoalho. Sentiu respingar-lhe o líquido. Preparou-se para correr e riscou o fósforo.

A chama o hipnotizou por uns segundo. O corpo detido no veículo sentiu o pé queimando, mas ainda demorou a se mover. Conseguiu fugir e no último degrau perdeu o pé de chinelo que estava em chamas.

Correu o mais que pôde sem olhar para trás. Não acreditava na liberdade. O coração ardendo como o ônibus, o pé chamuscado de asfalto quente.

Finalmente, chegando ao ponto combinado com o comendante, foi olhado da cabeça aos pés (semi-descalços). Estou sabendo que não fez como eu mandei. Mas está bom, dei meu recado.

Recobrada a cor, recebeu um tapinha nas costas sem sorriso e um cascudo sobre o boné. O pé ardia como se nunca tivesse descido daquele ônibus.