segunda-feira, 16 de março de 2009

Aula de Yoga

A sala era verde, a temperatura artificial. Por algum motivo naquele dia todos haviam faltado. Apenas Felipe, o professor, e Ana, a aluna. A sensação era boa, estar naquela posição estranhamente relaxante. Respiração controlada. Só o barulhinho do ar condicionado.
A mente se distanciando cada vez mais, tanto que nem sentiram os primeiros estalos. Concentrados em si mesmos, mantiveram o relaxamento, nem mesmo abrindo os olhos em pressentimento de perigo.
O estalo se transformou em estrondo. O chão fugiu do corpo e, para eles, era o estágio exacerbado da yoga. Mas não.
O chão sumiu, as janelas quebraram, os andares superiores desabaram sobre seus corpos em transe. Em segundos, tudo no chão. Menos Felipe e Ana.
Os dois flutuavam sobre os escombros. Colina equilibrada, mente concentrada em si, respiração controlada, olhos fechados, corpos flutuantes.

terça-feira, 10 de março de 2009

Superestiloso

Ele era estiloso, me apaixonei por isso. Ser estiloso hoje definitivamente não significa ter cabelo comprido. Antigamente era. Ser estiloso hoje não significa usar aqueles brinquinhos de brilhante na orelha esquerda como quando eu entrei na adolescência. Ser estiloso hoje significa ter cabelo mais pra curto, mas com um corte que pareça ter sido feito por seu irmãozinho de cinco anos. Significa ter adereço na orelha: não brinco, alargador. Usar camiseta lisa, mas velha e bem justinha ao corpo. Por isso, só isso, me apaixonei. Um cabelinho desregulado, alargador nas duas orelhas, camiseta azul desbotada e nenhuma personalidade.

Superestilosa

Ela era estilosa, me apaixonei por isso. Ser estilosa hoje definitivamente não significa ter cabelo dividido de lado. Antigamente era. Ser estilosa hoje não significa usar miniblusa. Ser estilosa hoje significa ter o cabelo mais pra curto, e com franja que pareça ter sido feita por você mesma. Significa usar blusa de brechó, mas sem as ombreiras. Usar sapato baixo em qualquer ocasião. Por isso, só isso, me apaixonei. Uma franjinha desconectada, blusa da vovó e as sapatilhas mais linda que já vi na vida e nenhuma personalidade.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Ausência

Estive fora por um tempo, não totalmente por fora.
Estive fora por um tempo...
mas voltei.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Centro da cidade

Eliete e Ciro se esbarraram na rua. Ele, muito educado, perguntou com gentileza se a tinha machucado. De fato, no esbarrão o queixo de Ciro batera contra a face de Eliete. A levou até um bar e pediu gelo para evitar o inchaço.

No dia seguinte Eliete viu Ciro entrando em um prédio e pensou que ele deveria trabalhar ali. Na hora do almoço se posicionou estrategicamente forçando o reencontrou que foi muito alegre.

Mais dois dias de encontros, até que chegou o dia de folga de Eliete. Ciro sentiu uma falta imensa de encontrá-la. Esperou o dia seguinte e a convidou para sair. Foram ao pagode, beberam cerveja, descobriram um ao outro. Foram para a casa dele. No dia seguinte Eliete declarou ao marido que estava saindo de casa, pois encontrara outra pessoa.
Ele radiante declarou:
- Que bom, podemos ir trabalhar juntos.
E entraram em seu carro, ela de uniforme laranja e boné; ele de terno e pasta.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Doenças contemporâneas (da série enumerativa)

Câncer, estresse, lipoaspiração, dieta da proteína, ansiedade, carro, internet, silicone, avc, dda, tdah, fast food, celebridades, self service, rinoplastia, reality show, anorexia, tráfico de drogas, obesidade, botas de cano alto, enfarte, música eletrônica.

Já sucumbi a algumas dessas doenças, de outras tento fugir. Boa noite e boa sorte.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Neuro

Procura um neuro, me diziam uns, vai no meu centro, lá eles curam tudo. Isso é encosto. A verdade é que eu não sabia o que fazer com os zumbidos que perturbavam minha mente. Fui ao otorrino e ele não encontrou nada. O mais estranho é que quando chegava ao consultório o chiado parava. Mas voltava assim que enfiasse a chave na porta do carro. Era como uma televisão fora de sintonia, um chiado que parecia querer se converter em som, em algo inteligível. Às vezes pra dormir eu ficava me embalando com aquele leve sussurro que não era de todo ruim. No início sentia como se tivesse entrado uma abelha no meu ouvido, aliás, tive certeza disso, mas depois de exames profundos não se achou nada, nem abelha, nem doença que explicasse o sintoma. Levei pra casa o diagnóstico do mundo moderno: estresse. Com o passar do tempo eu mesma fui apurando o ouvido e o zumbido ia se tornando cada vez mais um sussurro. Aprendi a sintonizar minha tv interna. Aos poucos as vogais foram se formando, e as consoantes mais primárias. Depois meu nome. Um acalento ouvir meu nome naquela voz rouca dentro do meu ouvido. Palavras de amor, canções de ninar, boleros antigos, cada vez mais conseguia entender aquelas palavras com nitidez. Cada vez mais me sentia acompanhada. Agora começa a se formar a imagem da voz na minha mente, ainda com chuviscos, mas logo em alta definição.