Mas, Regina, essa situação lá em casa não pode continuar. Estou sofrendo muito com isso tudo – e tinha, de fato, muitas desavenças em casa que a faziam sofrer. Meus filhos não se falam mais, o pai entra, não cumprimenta ninguém – pra onde foram nossos laços?. Eu, Regina, eu tenho que passar mensagem de um para o outro. Onde já se viu isso? Menina de recados dos próprios filhos. Pombo-correio da sala para a cozinha, da cozinha para o quarto. Mas será que é só para isso que sirvo – serve também o jantar e abastece banheiros com sabonete e toalhas – só para evitar que se espanquem, que se matem? Porque espancar, já espancaram.
É como você disse, Regina, o pai judiou muito deles quando eram crianças, se revoltaram. Eu tenho culpa porque nunca impedi João de bater nos meninos. Dizia que eram homens, tinham que aguentar a dor – embora nunca aguentassem, implorando o fim das pancadas com o rosto lavado de lágrimas – e cada vez mais batia – e cada vez mais as lágrimas eram de ódio.
Sabe, Regina, ter só homens em casa às vezes é um desgosto. Não tive uma menina para me ajudar a por ordem na casa. Pelo menos que lavasse a louça no fim de semana e ajudasse os irmãos na lição. Que nem a sua. Menina é mais inteligente, tira nota boa na escola – ela mesma repetira o segundo ano três vezes e largara a escola. Tive três meninos, cada qual mais grosso e violento. Culpa do pai. Ainda bem que me respeitam – não me batem, quis dizer – porque se me agredissem, não sei o que faria.
Ah, Regina, tão bom conversar com você. Você sabe o quanto sofro. Esse corre-corre. Já estamos chegando. Vou dar o sinal para descermos. Vem, Regina, Essa hora ônibus sempre lotado – em pensar que iria para cada mais tarde retomar a rotina de insultos, cobranças e gritaria... Regina, desce, Regina. Ué, cadê, Regina? Moço, minha amiga Regina está descendo, espera um pouco. Tem mais ninguém em pé para descer não, senhora. Tem alguma Regina, aí? Tem ninguém com esse nome aqui. Regina? Reg...