quinta-feira, 16 de abril de 2009

Cadê Regina?

Mas, Regina, essa situação lá em casa não pode continuar. Estou sofrendo muito com isso tudo – e tinha, de fato, muitas desavenças em casa que a faziam sofrer. Meus filhos não se falam mais, o pai entra, não cumprimenta ninguém – pra onde foram nossos laços?. Eu, Regina, eu tenho que passar mensagem de um para o outro. Onde já se viu isso? Menina de recados dos próprios filhos. Pombo-correio da sala para a cozinha, da cozinha para o quarto. Mas será que é só para isso que sirvo – serve também o jantar e abastece banheiros com sabonete e toalhas – só para evitar que se espanquem, que se matem? Porque espancar, já espancaram.

É como você disse, Regina, o pai judiou muito deles quando eram crianças, se revoltaram. Eu tenho culpa porque nunca impedi João de bater nos meninos. Dizia que eram homens, tinham que aguentar a dor – embora nunca aguentassem, implorando o fim das pancadas com o rosto lavado de lágrimas – e cada vez mais batia – e cada vez mais as lágrimas eram de ódio.

Sabe, Regina, ter só homens em casa às vezes é um desgosto. Não tive uma menina para me ajudar a por ordem na casa. Pelo menos que lavasse a louça no fim de semana e ajudasse os irmãos na lição. Que nem a sua. Menina é mais inteligente, tira nota boa na escola – ela mesma repetira o segundo ano três vezes e largara a escola. Tive três meninos, cada qual mais grosso e violento. Culpa do pai. Ainda bem que me respeitam – não me batem, quis dizer – porque se me agredissem, não sei o que faria.

Ah, Regina, tão bom conversar com você. Você sabe o quanto sofro. Esse corre-corre. Já estamos chegando. Vou dar o sinal para descermos. Vem, Regina, Essa hora ônibus sempre lotado – em pensar que iria para cada mais tarde retomar a rotina de insultos, cobranças e gritaria... Regina, desce, Regina. Ué, cadê, Regina? Moço, minha amiga Regina está descendo, espera um pouco. Tem mais ninguém em pé para descer não, senhora. Tem alguma Regina, aí? Tem ninguém com esse nome aqui. Regina? Reg...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Biografia

As pequenas tramas da vida são os grandes acontecimentos. A briga com a melhor amiga. A reconciliação. Os novos encontros. Uma comida inesquecível cuja receita descobrimos na Internet ou com uma tia. A almoço de inauguração da nova receita.

As pequenas tramas da vida são os adjuntos adnominais. Sem elas, somos nós, sim, uma identidade, mas nenhum determinante. Sem elas, não sabemos se foi belo ou feio, se foi alegre ou triste. Sem elas as coisas apenas seriam. Nascer, crescer, se reproduzir, morrer.

As pequenas tramas da vida fazem com que a morte se torne um evento triste. Porque ver morrer que te ensinou a amarrar o cadarço, ou a pessoa com quem você andou de ônibus pela primeira vez. Ou quem te deu nota zero na escola. Ver morrer essas pessoas é a maior tragédia da vida.

As pequenas tramas da vida fazem com que um beijo não seja só o ensejo da relação sexual. Seja o momento mais esperado, mais aguardado e almejado de uma existência. Um simples tocar de bocas que não nasce da simples vontade. Necessita de alguém que seja o alguém, que tenham que te apresente esse alguém, que corresponda a você. É preciso ser o alguém de um alguém.

As pequenas tramas da vida nos fazem comprar livros e guardar flores secas dentro deles. Nos fazem dá-los de presente. Nos fazem filosofar à toa. Nos fazem biografar.

domingo, 12 de abril de 2009

O dragão comilão

Ganhei o livro O dragão comilão na minha festinha do livro, no fim da alfabetização. Eu adorei. O dragão comia de tudo, comida, flores e, por fim, palavras. Na última página do livrinho, havia um espaço em branco para que nós escrevêssemos uma historinha. Eu escrevi, mas não sabia direito como fazer isso. Meio que copiei a historinha do livro e ficou por isso mesmo.

Com o tempo entendi a metáfora do dragão comilão ter sido nosso primeiro livro na vida alfabetizada. Nós éramos os dragões. Eu fui o dragão. Segui à risca, desde a primeira vez que o li. Passei a deglutir todas as palavras. A mesma dificuldade que senti quando tive de escrever a historinha no final, sinto hoje. O livro tinha me contaminado e era difícil não repeti-lo.

A diferença é que hoje, após centenas de livros lidos, tenho um repertório maior. Mas nunca, nem uma vez nessa vida, consegui escrever sem repetir as histórias dos livros da minha vida.

sábado, 11 de abril de 2009

Livros me dão náusea 4

Me lembrei de atualizar as leituras para não me perder nos livros lidos durante o ano. Agora estou nos contos. Um pouco de cada coisa: Sagarana, Onde estiveses de noite e O volume 2 (Adultério e ciúme) da coletânea de contos de Machado de Assis. Vou lendo os contos aos poucos, revezando e deixando de lado os de que gosto menos. O livro da Nélida Piñon parei de ler, não consigo insistir, se a leitura empaca, ok, retomo um dia. O da Lygia Fagundes Telles terminei. Muito bom.

Semana Santa

Nublado e vago, o dia acordou vazio de sonhos. Na cama, Luana já pensava na dura rotina de mais uma semana. Café com excesso de açúcar, cidade com excesso de ruas e nenhuma gentileza.
Saiu na hora de sempre e pegou o ônibus para o trabalho. A condução, já cheia, iria em pé, estava acostumada. Mas naquele dia, algo diferente: um rapaz levantou-se para lhe ceder o lugar. Luana tentou recusar, mas no final sentou e como poucas vezes havia acontecido, chegou ao trabalho descansada.

No trabalho, o dia transcorrera sem sustos, nenhuma cobrança do chefe, colegas simpáticos e mais silenciosos que o comum. Quase não sentiu sono durante o expediente. O dia foi mais agradável do que o esperado.

O dia seguinte não poderia ser tão bom. Mas foi igual ou melhor. Havia lugar no ônibus e a pessoa ao lado não dormiu em seu ombro nem puxou assunto sobre conversão religiosa. Recebeu elogio do chefe e almoçou uma lasanha aos quatro queijos sem a menor culpa. Chegou em casa leve e dormiu muito bem relembrando seu bom dia.

Sua sorte não poderia ser melhor. Saiu de casa temendo um temporal, pois, após dois dias nublados, a chuva cairia certamente. Ao contrário disso, no meio do trajeto as nuvens sumiram e o sol brilhou intenso. Sentiu calor, pois a roupa escolhida era para um dia mais fresco. Por sorte, era dia de liquidação nas lojas e a caminho do trabalho comprou um vestido lindo pela metade do preço. Passou o dia recebendo elogios pela bela roupa.

Ah, a generosidade da vida causa desconfianças. Mesmo após três ótimos dias, ainda não conseguira relaxar pensando nas compensações negativas que viriam. Preparou-se para a reunião de quinta-feira. Não poderia evitar o estresse. Foi munida de muita calma e argumento que nem precisou usar. O chefe viajara e em seu lugar um assessor passou apenas os resultados da semana elogiando a equipe e encerrando a sessão mais cedo.

A esmola é demais. Luana já olhava os rostos simpáticos com um certo medo. Pensou que estava prestes a ser demitida e que, como todos já sabiam, a tratavam bem por remorso. Nunca uma semana havia sido tão boa e produtiva. E como ainda faltava um dia, Luana resolveu tratar de torná-lo perfeito.

Vestiu sua melhor roupa, chegou mais cedo ao trabalho, cumprimentou com entusiasmo a todos os colegas. Teve ideias, trabalhou como nunca. Às 11 da manhã recebeu uma entrega: flores do ex-namorado que se desculpava pelo sumiço e admitia não tê-la esquecido. Ao meio-dia o telefonema de uma grande amiga que estava passando por perto e resolveu convidá-la para o almoço. Às 6 horas o happy hour com os colegas de trabalho. Às 8 horas uma passada pelo mercado para comprar algumas coisas para o fim de semana e, surpresa!, fora sorteada na semana anterior e sem saber era dona de um vale compras no valor de três mil reais.

Chegou em casa cansada de tanta alegria. Descalçou os sapatos, jogou as sacolas pelo chão e deitou no sofá sorrindo de espanto, olhando o teto mal conseguindo pensar. Luana, a mesma de sempre, sem nada demais, nem uma oração sequer, ganhara de presente da vida uma semana formidável. Ficou pensando em tudo que se passara naqueles dias sem acreditar, até que seus olhos se inundaram se sono e os sonhos se misturaram com a realidade...

domingo, 5 de abril de 2009

Insetos

Hoje eu vi um besouro, e um pequeno louva-deus. Que bom, amanhã só restarão as baratas.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

A noiva tímida

Seu vestido era de um branco perolado. Um branco não-branco. Ia se casar depois de cinco anos de namoro e dois de noivado. Enxoval bordado, lindo, lindo. O noivo comprou uma casa que ela ainda não conhecia. A mãe comprou camisolas que ainda não vira. Um pouco nervosa subiu as escadas da igreja e, muito baixinho, respondeu que sim. Queria se casar. No carro, encolheu-se no abraço no recém-marido que antevia as delícias do amor de mais tarde. Na festa, dançaram a valsa, ela, nada mais, cumprimentou um por um e alegando cansaço sentou-se até a hora do bolo. Não o comeu, evitando o açúcar para manter o corpo de noiva. No hotel, reservada uma linda suíte que esperava o feliz casal com pétalas de rosa e champanhe. Entrou no colo como diz o ritual. Beberam a primeira taça. Ele a conduziu ao banheiro para que trocasse o vestido pela camisola. Ele, já sob os lençóis, a esperou. A noiva deitou-se. O noivo a abraçou, tentou tirar sua camisola, ela não deixou. Tentou beijá-la na boca, ela rejeitou. Tentou deitar-se sobre ela. Ela pegou a garrafa de champanhe e golpeou-o na cabeça. Dormiram em paz.