quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Pleonasmo

Saindo pra fora pediu ajuda:
– Ele está com hemorragia de sangue!
– Quando foi isso, senhora?
– Há um minuto atrás.
– E o que aconteceu?
– Caiu pra baixo, será que teve traumatismo craniano na cabeça?
– Calma dona, quem foi?
– Meu filho, menino macho. Tava só eu e ele, só. Eu pisquei os olhos e ... Entra lá dentro de casa e vê. Tenho medo de ver meu filho um defunto morto!

Juliana

Ganhara uma boneca feia, como a maioria das bonecas era. Mas encantadora aos seus olhinhos. No dia seguinte ao aniversário acordara cedo com medo de que o presente fosse apenas sonho.
Lá estava, sua boneca e melhor amiga. O nome escolhido foi Juliana. Ficavam deitadas na cama conversando por horas, contavam segredos uma para a outra. Eram mãe e filha, vice-versa. As melhores horas do dia, só não podia levá-la à escola. Não tinha problema, lá falava muito sobre a sua Juliana.
- Filha, se arrume que vamos sair.
- Posso levar Juliana, mãe?
- Hoje não, filha.
A menininha foi triste e ficou amuada na casa da madrinha, sem beber refrigerante nem comer o brigadeiro da festa do priminho.
- Filha, vou te levar ao médico, acho que está doente.
- Posso levar Juliana?
- Médico não é lugar de brinquedos. Ainda mais essa boneca grande.
E mais triste a amuada ficou a menina.
Não gostava de passear, nem ir à lanchonete que tanto gostava se não pudesse levar Juliana.
- Filha, hoje nós vamos á festa da tia Jô.
- Não quero, mamãe. Quero ficar com Juliana.
- Está bem, hoje não te levo, fique brincando.
Uma alegria imensa tomou o peito, todo o corpo da menina. Nem esperou a mãe sair, correu para o quarto. Juliana a esperava na cama. Deitou-se em seu colo e Juliana a pôs para dormir com histórias e cantigas. Assim que a menina adormeceu, Juliana a colocou na prateleira de brinquedos, voltou para a cama e dormiu.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Gérbera vermelha

O rapaz me deu um sorriso, e eu era um homem de terno. Qual o problema, homem de terno? Preconceito meu, mesmo assim achei estranho. Cumprimentei de volta e fiquei quieto esperando o elevador chegar ao térreo. Na volta do trabalho havia uma flor no capacho de casa. Uma flor vermelha que não sabia o nome. Busquei na Internet imagens de flores pra descobrir o nome daquela: gérbera. Não pus na água, larguei em cima da mesa de jantar. Sem desprezo, apenas deixei que ela morresse.
Não morreu, de manhã ainda estava bonita e fresca. Assim como ele, no máximo dezenove anos. Assustadoramente dezenove anos. Guardei com ternura a flor no bolso interno do paletó. Desci de escada por puro medo, mas me detive astuto na portaria.
A porta aberta do elevador e ele saindo. “Bom dia”. “Oi”. Saímos juntos em direção ao centro da cidade, talvez ele fosse à faculdade. Eu de terno, suando muito por dentro. O rapaz fez menção de atravessar a rua, eu entraria à direita. “Vou por aqui”. “Tchau”. Se despediu com um beijo na boca e a mão na flor. O rapaz me deu um sorriso, e eu era um homem de terno. Qual o problema, homem de terno? Preconceito meu, mesmo assim achei estranho. Cumprimentei de volta e fiquei quieto esperando o elevador chegar ao térreo. Na volta do trabalho havia uma flor no capacho de casa. Uma flor vermelha que não sabia o nome. Busquei na Internet imagens de flores pra descobrir o nome daquela: gérbera. Não pus na água, larguei em cima da mesa de jantar. Sem desprezo, apenas deixei que ela morresse.
Não morreu, de manhã ainda estava bonita e fresca. Assim como ele, no máximo dezenove anos. Assustadoramente dezenove anos. Guardei com ternura a flor no bolso interno do paletó. Desci de escada por puro medo, mas me detive astuto na portaria.
A porta aberta do elevador e ele saindo. “Bom dia”. “Oi”. Saímos juntos em direção ao centro da cidade, talvez ele fosse à faculdade. Eu de terno, suando muito por dentro. O rapaz fez menção de atravessar a rua, eu entraria á direita. “Vou por aqui”. “Tchau”. Se despediu com um beijo na boca e a mão na flor.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Livros dão náusea?

Em mim dão. Ok, eu sou uma pessoa ansiosa e aflita e isso não muda quando eu leio. Piora. Às vezes quando quero terminar logo o livro, outras quando sinto pena do livro estar terminando. Ou então quando a trama parece que vai ter desfecho (tudo bem se não tiver, já estou acostumada), e só faltam duas páginas! Áhhhh, que aflição! Ultimamente esses sintomas têm piorado, todo livro me deixa nervosa, agoniada e com enjoo. O que será isso minha gente? Dos que estou lendo: Capitães da Areia me dá nervoso pela impressão de que o livro começa a terminar na metade do volume. O ovo apunhalado me dá aflição porque simplesmente não sei se quero ler. E Anna Kariênina me embrulha o estômago por medo de não conseguir terminar aquele livrão. Tenho probleminha.

O espelho

Claudia se olhava no espelho oval. Já era noite e não havia muito barulho lá fora, às vezes passos, às vezes latidos. O espelho era tão antigo quanto as paredes daquela casa que também refletiam formando uma moldura negra ao redor da cabeça de Claudia. Eram muitos anos de fumaça impregnada pretejando os tijolos rudes e criando aquele odor tão peculiar a casa.
Se olhava e se via linda. As lentes de contato verdes pareciam naturais. Mas o nariz era bruto demais, quem sabe se um dia ganhasse muito dinheiro pudesse fazer uma plástica para afiná-lo. O vestido estava bom, velho, mas sempre reformado de acordo com a moda. Tudo lhe caía bem.
A fumaça no ambiente começava e se adensar e embaçar o espelho. Claudia passava sua bolsa, muito pequena e quase vazia, pelo vidro e voltava a contemplar sua beleza procurando manchas e espinhas que a maquiagem se recusava a esconder. Mas para quê? Mesmo sem maquiagem sua beleza era superior. No trabalho isso causava muitas brigas, as outras não a queriam por perto roubando todas as atenções. Mas suas amigas, as verdadeiras, diziam: Claudia, você é a mais bonita de nós, um dia vai tirar a sorte grande e encontrar alguém que te leve daqui. Tinha fé nisso.
Um rumor de passos vinha em direção a casa. Aos poucos o som das chinelinhas de couro se aproximava tirando Claudia de dentro de seus pensamentos e fazendo com que se desse conta do calor que fazia ali.
Carlos, Carlos, meu filho, a sopa está pronta, toma um pouco antes de ir trabalhar. Sim mamãe, mas só um pouco. Precisava manter seu corpo enxuto e belo, precisava trabalhar ainda mais para dar uma casa de verdade com um fogão de verdade para sua mãe.
Se pudesse largava tudo e ia embora, mas não podia abandoná-la. Olhava a mãe comendo em sua frente. Agora o espelho refletia o topo das duas cabeças. Já vou mamãe. Vá com Deus, meu filho.
Deu a última olhada do espelho, ajeitou o vestido e saiu bamboleando sobre o salto alto de verniz.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Feliz ortografia nova!

Tive a ideia de pegar o voo no turno. Maravilha! Todos dormindo, um silêncio autopiedoso. Maravilha mesmo! Não aguentava mais toda aquela agitação de festas. Por que as pessoas ficam tão histéricas? Parece que o mundo vai acabar e hoje é o último dia pra sofrer um acidente e morrer! Simplesmente não faz sentido. Dá vertigem, dá enjoo de existir. Mesmo assim a gente viaja e depois percebe que tomou a decisão mais estúpida do mundo. Mas fazer o quê, né? Já estamos fora de casa, sendo recebidos por amigos bêbados que acham que a vizinhança toda cabe num micro-ônibus que vai até a praia. Igualmente lotada. Cinquenta por cento da praia é composta por crianças perdidas e os outros cinquenta, por pais irresponsáveis que não estão nem aí. Suportei dois dias, mas quando me lembrei da queima de fogos, do banho de champanhe e dos abraços de feliz ano novo resolvi: volto ainda hoje! E daí ser chamada de antissocial? Sou mesmo! E por isso amei o voo das 21horas na véspera do ano novo. Poucas pessoas, ninguém pra conversar. Um livro sobre Antiguidade e nenhuma história pra contar.

O teste

Ele disse:
- Vá ser Rainha do Lar.
Ela disse:
- Não, serei atriz.
Em pequena dançava e cantava para os pais e tios, se fantasiava de princesa e desfilava pela sala de estar.
- Cozinhar como minha mãe? Não, eu gosto de comer bem sem precisar entrar na cozinha.
Que orgulho tinha a mãe, sua menina independente, linda, uma princesa de verdade.

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Ele disse:
- Será mãe também.
Ela disse:
- Jamais serei mãe, prezo pela a liberdade.
Planejava viagens que contava às primas, convidado-as para irem juntas pela Europa, Miami, México. Lia guia de viagens e revistas de celebridades, todas, uma pilha ao lado da cama.
- Minha filha lê muito, passa horas no quarto com as revistas.
Põe as revistas de lado, abre a porta do armário e dança, tira o vestido e dança em roupas de baixo. Se olha de um lado, de outro, tenta se mirar de costas. Difícil. Quem sabe se tirar fotos...
Passa hidratante, não quer ter estrias. Homens? Nem pensar, nada de perder tempo com esses garotos bobos, tem um futuro para cuidar.
- Mamãe, lasanha no jantar? Já não te disse que não como carboidrato depois das 6 horas? Vou me deitar.
- Narciso, me lembre de passar no sacolão amanhã para comprar umas verduras, a menina não pode comer massa. Ah, Narciso, ela está se cuidando. Ué, para ser artista. Você não sabia que artista não come massa depois das 6 horas? Nas revistas que ela lê diz isso.

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Ele disse:
- Vá conhecer um homem.
Ela disse:
- Eu o escolherei.
No dia do teste para o comercial saiu de casa cedo acompanhada pela mãe. Calça jeans e camiseta branca como dizem que é adequado para testes. Cabelos soltos e sem maquiagem para mostrar a beleza natural.
A fila já ia longe, muitas meninas de várias formas, idades e tamanhos. Muitas mães também.
- Nossa, minha filha, é tanta gente.
- É mamãe, os teste para comerciais são muito divulgados.
- Mas você é a mais bonita.
- Eu sei, mamãe.
O teste consistia em: ficar parada em frente a uma tapadeira branca, fica de perfil, outro lado. Sorriso. A próxima. Resultado em duas semanas.

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Ele disse:
- No próximo teste vá de minissaia.
Ela disse:
- Não desistirei nunca.
Muitos testes e pequenos comerciais depois, chega o dia de gravar um videoclipe. Uma cena de festa, com muitas moças e rapazes dançando enquanto o (novo) astro do vídeo canta no palco com suas bailarinas principais.
- O vídeo vai ser um sucesso, vai alavancar a carreira dele.
- E você aparece, filha?
- Apareço, eles mostram a hora em que eu rebolo até o chão.
A mãe tremia de emoção quando o vídeo foi exibido às 5 horas da manhã de uma segunda-feira.
Uma semana depois o telefone toca. É o empresário do tal artista.
- Uma de nossas bailarinas foi selecionada para um reality show, precisamos de uma suplente, você gostaria de fazer o teste?
- Claro, disse sem demonstrar entusiasmo. Desligando o telefone, começou a pular e abraçar a mãe gritando!
Correu para o quarto ensaiar a coreografia.
Com tanto empenho ela passou no teste, recebeu os figurinos. Pequenas casas em que faziam números pequenos, com duas ou três músicas. Sempre esforçadíssima, simpática e alegre, as portas estariam se abrindo para o sonho.
No camarim recebeu elogios do empresário.
- Você sabe cantar?
- Um pouco.
- Vamos fazer uns testes de voz no meu estúdio.
- Sério? Claro!
- Mas não leve sua mãe, essas coisas demoram e você já está bem grandinha, não é?
- É, na verdade eu tenho vinte e cinco anos.
- Vinte e cinco? Parece ter dezoito.
- Eu sei, na verdade eu gostaria que as pessoas não soubessem minha idade verdadeira.
- Sem problemas, linda.

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Ele disse:
- Mostre a voz, mas não se esqueça de seus outros talentos.
Ela disse:
- É claro que mostrarei.
O estúdio ficava em uma casa muito bonita, tinha até piscina. Antes de começar a trabalhar sugeriu um mergulho, umas bebidas. Tinha biquínis no quarto de hóspedes, era só escolher.
Ela achou o quarto lindo e muitos biquínis de grife. A maioria ficava grande na parte de cima, mas conseguiu um que deu direitinho. Antes de sair, olhou mais uma vez no espelho, respirou fundo e saiu.
Em uma das espreguiçadeiras estava o empresário, de bermuda com um copo de uísque na mão. Ela se sentiu em um seriado americano. Gostava. Mas sabia onde aquilo ia terminar.
- Ficou linda nesse biquíni, mas posso fazer uma sugestão?
- Pode, disse baixinho.
- Você tem seios pequenos, não destacam sua beleza.
- É, a maior parte dos biquínis que eu vi na gaveta eram de tamanhos maiores.
- O que acha de botar uns implantes?
- De silicone?
- É.
- Não tenho dinheiro para isso ainda.
- Eu pago, aliás, te faço um empréstimo. É um investimento na carreira, vai por mim.
Já se sentir linda e poderosa em um sutiã tamanho 42. 42 não, 44. Em uma reunião com a equipe do cantor, o empresário comunicou que a moça seria substituída por umas semanas, pois passaria por uma cirurgia. Ninguém se opôs, é claro. A outra moça já estava devidamente paramentada e não teve inveja.
A semana da cirurgia ela passou na casa do empresário. Primeiro naquele quarto de hóspedes que havia conhecido no primeiro dia, depois no quarto do dono da casa onde havia mais conforto e uma cama enorme. Até agora não havia feito o tal teste de voz, mas para quê?, o investimento que faria valia a voz e todo o resto.
Depois da operação o empresário veio comunicá-la de que a estava desligando do grupo.
- Mas como? Por quê?
- Porque eu tenho vôos mais altos para você, linda. Gravação de um cd, ensaio para revista...
Jogou-se sobre seu empresário, dando um gemido de alegria e de dor porque ainda doía o busto quando apertado. Não conseguiu agradecer com palavras e ele, já acostumando com moças recém operadas, fez de tudo para não machucar ou pressionar os novos seios.
Já linda, totalmente recuperada, fez fotos sensuais para uma revista. A verdadeira estrela, ex-dançarina, empresariada por um grande nome do showbiz. A mãe comprou quinze exemplares e distribuiu pela família.
- Olha, Narciso, nossa menina. Vulgar nada, muito bom gosto. Ela vai sim, logo, logo recebe o convite. Nu artístico, Narciso. Pode se preparar.
Antes da leitura do contrato recebera um outro documento para ler. Estava escrito: positivo para gravidez e negativo para HIV. Alívio. Desespero.
- Mas o ensaio é para daqui a um mês, até lá você vai ter engordado. Vou pedir a revista que fotografe o mais rápido possível.
A revista não podiaria mudar as datas e já tinha outro nome em vista. Tudo bem, pensava ela, gravava seu cd durante a gestação, logo que o bebê nascesse fazia regime, uma lipo e pronto, faria a revista.

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Ele disse:
- Vá ser Rainha do Lar.
- Linda, pega mais um uísque aqui para mim.
Deixando a babá pegar seu filho no colo foi até o bar e pegou a garrafa fechada. Atrás do balcão havia um espelho. Se olhou como no primeiro dia, mas agora vestida com uma malha de ginástica. Forjou o sorriso e foi servir o empresário e os convidados. Sentou-se junto a eles.
- O que acha dessa menina, amor? Estamos pensando em fazer um teste de vídeo com ela.
- Bonita.
- Muito bonita, só tem dezoito anos.
- Acredita que essa gata aqui tem vinte e seis anos?
- É mesmo?! Não parece. Homem de sorte você, hein?
- Sorte mesmo. Ainda me deu aquele meninão ali e mais tarde, quem sabe, volta à carreira artística.
Olhando-a com carinho fez sinal que entrasse. Ela se dirigiu à cozinha para supervisionar a empregada. Pegou a mamadeira do filho e entregou à babá sentando-se ao seu lado no sofá, de frente para a televisão ligada.