quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Blues cool ou Hoje eu quero ser cool

Hoje eu quero ser cool. Quero aprender a tocar blues. Quero entender de jazz e rock. Hoje eu quero ser cool, saber bossa nova e literatura russa. Hoje eu quero ser cool, tropicalista. Não casar nunca de depois casar porque mudei de ideia. Hoje eu quero ser cool, não mais gostar de funk, beber cerveja gelada num bar sujo. Beber conhaque bem escuro. Hoje eu quero ser cool, ir à praia com um livro do Maiakóviski. Quero analisar cinema, escolher filmes pelo diretor. Hoje eu quero ser cool, não me sentir mais inseguro. Aprender a comer sushi, ter amigos cools. Brigar por política, chorar pela arte. Hoje eu quero ser comunista. Hoje eu quero ser cool, excluir meu orkut, despublicar meu livro. Quero ser cool da cabeça aos pés, o cu do cool.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A casa do lado (parte 3)

Corri até o quartinho quase de olhos fechados, mas antes de entrar olhei pra cima. Lá no último andar tinha uma janela para os fundos, na mesma direção da janela que dava para a frente. Vi a velhinha, na mesma postura, na mesma posição, olhando a gente. Gelei da cabeça aos pés, quase desmaiei e dei um grito quando Clara segurou meu braço mostrando a caixa de biscoitos que havia achado. Olha só, esta fechada, vamos comer? Não, não! Saí correndo e caí tentando escalar o muro. Fiquei colada à parede até o primo de Clara aparecer e me ajudar a pular.


Segura, do meu lado do muro, comecei a chamar Clara e o primo para que voltassem. O menino veio, mas sozinho. Disse que depois de me ajudar, voltou ao depósito e não encontrou Clara. Chamou, teve medo de gritar e acordar alguém. Era melhor esperarmos, sugeriu. Eu aceitei, apavorada. Fiquei sentada na varanda olhando a casa ao lado à espera da minha amiga. Foi quando uma luz se acendeu no último andar. Quase tão rápido quanto um piscar, não tive tempo para avisar ao menino. Quando me virei para contar a ele o que tinha visto, ele estava dormindo, encolhido no tapete como um cachorro, com as unhas sujas e o cabelo bagunçado.


Quando pisquei de novo já era dia, eu dormi na cadeira da varanda e o primo de Clara no chão. Minha mãe saiu da casa correndo, com a cara apavorada, por um momento pensei que ela soubesse o que acontecera com Clara. Ela se assustou ao ver o menino dormindo no chão e começou a pedir explicações enquanto nos levava pra dentro de casa.


Clara estava desaparecida e eu sabia o que tinha acontecido. Mas aparentemente, pelo menos para os adultos, o desaparecimento da menina em nada tinha a ver com a invasão à casa dos vizinhos na noite anterior. Soube que a polícia entrara na casa ao lado e revistara tudo. Lá apenas dois casais de idosos vivendo sob os cuidados dos filhos. No depósito dos fundos, nada além de velharia. As comidas velhas e estragadas foram jogadas fora e um policial ainda os aconselhou a tomar cuidado, pois a vizinhança estava cada vez mais perigosa.


Triste pelo desaparecimento de Clara e com medo de que o mesmo pudesse acontecer comigo, minha família resolveu se mudar. Sai de casa um pouco aliviada. Dentro do carro olhei pela última vez a casa ao lado. Na janela do último andar vi a velhinha com uma lata de biscoitos no colo, segurando a coleira de um imenso cachorro.

A casa do lado (parte 2)

Uma das minhas amigas, Clara, era apaixonada por velhinhos e tinha muita vontade de ir lá falar com aquela avó, pegar em sua mão, lhe presentear com biscoitos. Não sentia o mesmo medo que os outros, tinha pena. Ela sempre se perguntava se não precisavam de comida ou alimentos especiais, já que velhos costumam ficar doentes.


Durante as férias, Clara recebeu seu primo em casa. Ele logo se juntou ao curioso grupo que iam todos os dias espionar os vizinhos. Ainda sem o pavor que o resto de nós sentia, insistiu em pular o muro pra procurar o cachorro que tinha na casa, pois naquele dia os latidos não paravam e continuávamos sem ver nada.


Eu, muito medrosa, pedi que ele não fosse, e nem quis olhar quando subiu no muro e pulou para o outro lado. Meus joelhos tremiam tanto que precisei sentar no batente da varanda pra disfarçar. Menos de cinco minutos depois o menino voltou, esbaforido, com o rosto iluminado!
Ele andara em volta da casa, ninguém o notou. Foi até os fundos e tentou ver algo pela fresta da porta do quartinho. Viu muito pouco, mas com certeza não tinha cachorro. Parecia mesmo um depósito com várias caixas e prateleiras com coisas empilhadas. A aventura só serviu pra atiçar ainda mais a curiosidade das crianças e o meu pavor que nem por um momento diminuiu. Só aumentou, tanto que fiz xixi nas calças. E entrei correndo em casa, chorando de vergonha.


Soube depois por Clara que o primo entraria de novo lá à noite com grampos e arames pra tentar abrir o cadeado do depósito. Ela planejava ir junto. Tentei convencê-la a desistir, mas quanto mais eu argumentava mais ela se enchia de coragem. No fim cedi e disse a minha mãe que ela dormiria lá em casa. Assim, levantamos durante a noite e abrimos a porta para o primo dela que estava paramentado pra descobrir mais coisas essa vez.


O menino pulou o muro primeiro e eu ajudei Clara e subir. Fiquei olhando os dois darem a volta pela frente da casa. Nenhum morador apareceu. Nem cachorro. Chegaram à porta do quartinho e começaram a enfiar grampos e pedacinhos de arame retorcido até que, me dando sinal de positivo, o cadeado se abriu e os dois entraram. Demoraram pouco tempo lá dentro e eu já estava com vontade de vomitar de tanto medo. O primo de Clara veio correndo até o muro, onde eu estava, e me chamou pra ia lá ver. Era um depósito de comidas, enlatados de vários tipos, muito velhos e empoeirados. Comida de cachorro, pedaços de tecido enrolados em tábuas. Garrafas cheias e vazias. Criei coragem e pulei o muro

A casa do lado (parte 1)

Nunca vou à casa dos meus vizinhos. As pessoas me acham excêntrica, dizem que eu devo ir ao analista, que isso é algum tipo de síndrome ou fobia que me impede de me relacionar socialmente. Mas eu me relaciono muito bem, perfeitamente, menos com os vizinhos. Tudo porque na minha infância houve uma casa ao lado.

A casa era quase igual a minha. Morava naqueles conjuntos habitacionais antigos, em que as casas, antes iguaizinhas, já tinham sido modificadas. Essa era ainda bem parecida, com um andar a mais e um quarto separado nos fundos. Esse quarto, víamos de longe, não tinha janelas, apenas uma porta de madeira e com grade por fora. Parecia depósito de alguma coisa.

Havia movimento na parte interna da casa, víamos pessoas lá dentro, homens e mulheres quando abriam as cortinas. Adultos e idosos. O estranho é que eles nunca saiam. Esse era o mistério da casa. De onde tiravam comida se não iam ao mercado? Ninguém ia ao médico, nem saía de férias. Também não havia horta ou animais de que pudessem se alimentar.

Às vezes ouvíamos som de muitas conversas na casa, como uma festa, mas sem alegria. Eu, meus irmãos, minhas amigas da rua sempre espiávamos a casa pelo muro. Mesmo compartilhando o muro, meus pais não conheciam os vizinhos. Devem ser muito velhos e não podem mais sair de casa, somos novos aqui, por isso não os conhecemos, dizia meu pai. Embora já morássemos lá há 10 anos. E eu vi, havia pessoas jovens lá também. Pela janela eu enxergava uma mulher se cabelos compridos, dois homens baixos aparentando menos de 40 anos. Eles se movimentavam muito pela casa, passavam uns pelos outros sem nada dizer. Pareciam em um trabalho incessante.

Ouvia-se latido de cachorro e uivos, mas nunca vimos o bicho. Parecia que, como os outros moradores, ele vivia confinado na casa. Pensamos que poderia morar naquele quartinho dos fundos. Mas já haveria morrido, pois ninguém nunca ia até lá alimentá-lo.

E tinha os velhos, quatro velhos, dois casais. Uma das mulheres idosas ficava na janela do último andar olhando a rua, mas o vidro permanecia fechado. Mesmo quando chovia muito, com raios e trovões, mesmo quando saíamos ainda na madrugada de viagem à praia, a víamos na janela. Ela nunca dirigia o olhar.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Os dias caros

Há dias em que sua impressora funciona. Seu filme preferido vai passar na tevê. Alguém da família resolveu pedir pizza e o livro que você comprou na Internet chegou. Há dias em que nada no corpo dói e a mente está limpa. Dias em que sentimos vontade de malhar e que o doce não faz falta. Há dias em que duas pessoas queridas e distantes te ligam. Dias em que a gente esquece que o dinheiro existe. Que o telejornal existe. Nesses dias o capítulo da novela é bom e conseguimos ler um livro inteiro. Há dias que alguém que você ama está mais feliz, que as frutas estão saborosas e você consegue dormir plenamente.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Choro

Ontem meu pai chorou pela primeira vez. Lembro-me bem de que ele dizia que era balela isso de homem não chorar. Que o choro era a manifestação fisiológica de nosso estado de espírito. E eu chorava, me sentia livre pra abrir o berreiro. Era uma felicidade imensa dentro da tristeza que provocava aquele choro. E quando os moleques me chamavam de maricas – quando alguém me machucava no futebol ou me ofendia na escola – eu dizia que meu pai, o maior homem da face da minha terra, dizia que todo mundo tinha direito de chorar, até os homens. Mesmo assim papai nunca chorava. Eu pensava que só podia ser porque ele era muito feliz, não tinha motivos pra ficar triste e esse era o melhor estado em que alguém podia se encontrar. Mas, ontem, a professora de geografia faltou e eu fui pra casa mais cedo. Chegue na sala e não havia ninguém, fui entrando devagar e vi, dentro do meu quarto (meu e de meus irmãos), olhei e vi, vi sentado na cama, vi meu pai, chorando abraçado a uma boneca.

Dor de cotovelo

Saí de casa com vontade de comprar uma arma, o pior presente que eu poderia me dar, te dar. A arma pra mim, a bala pra você. A pior desgraça das nossas vidas. Muito pior pra mim. Com ou sem culpa, talvez uma mulher atrás das grades. Talvez um pouco mais feliz em liberdade de ti. Mas será a morte única solução? Culpa sua, antes de tudo, as manchas no meu corpo. Se houvessem desculpas depois, um pedido de perdão antes de deixar a casa. Ou se pelo menos não me deixasse saber, se me dopasse, mentisse, fosse viver em outro país. Mas aqui, nesse amor ilegal, me machucando por querer, me abandonando por outra... faz-me achar que uma arma, só uma arma pode resolver esse problema.